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SE TUDO ESTÁ TÃO COMPLEXO, TALVEZ A CULPA SEJA SUA

Por André Soares

Olá leitoras e leitores, comandante na área!

Existe um alívio silencioso em dizer que tudo está complicado demais. A economia está difícil, a empresa é politizada, a família nunca nos entendeu, o chefe não escuta, o mercado é cruel. Cada frase carrega uma parcela de verdade, e é justamente por isso que ela é tão perigosa: uma meia verdade bem repetida vira abrigo, e quem se abriga nela por tempo suficiente acaba morando lá.

Este artigo parte de uma pergunta incômoda, que quase ninguém quer fazer em voz alta: e se uma parte relevante da complexidade que enfrentamos for fruto das nossas próprias decisões, ou da falta delas? Não se trata de negar que existam injustiças, estruturas pesadas e pessoas que nos machucaram. Trata-se de reconhecer que, mesmo dentro delas, sobra sempre um espaço de escolha. E que é nesse espaço, às vezes minúsculo, que a vida de fato se decide.

A frase “a culpa é sua” soa dura, e é de propósito. Mas aqui ela não funciona como sentença, e sim como convite. Culpa, no sentido que interessa, não é castigo: é autoria. Quem se reconhece autor de parte da própria história ganha o direito de reescrever o capítulo seguinte. Quem terceiriza toda a autoria entrega a caneta a qualquer um que aparecer.

O sistema existe, e ele pesa

Antes de falar de responsabilidade, é preciso ser honesto sobre o peso das estruturas. Ninguém nasce numa folha em branco. Nascemos numa família com crenças, silêncios e feridas que vieram antes de nós. Crescemos numa sociedade que distribui oportunidades de forma desigual, que premia uns e ignora outros, que impõe padrões de sucesso difíceis de questionar. Trabalhamos em organizações com hierarquias, metas, políticas e culturas que muitas vezes recompensam o que há de pior no comportamento humano.

O sistema familiar ensina, sem dizer, o que é amor, o que é conflito, o que é merecimento. O sistema social define o que é aceitável e o que é vergonhoso. O sistema organizacional ensina quando falar e quando se calar. Tudo isso molda nossa identidade antes mesmo de termos maturidade para avaliar o molde. Negar essa influência seria ingenuidade, e dizer a quem sofre com ela que “basta querer” seria crueldade.

Portanto, que fique claro: reconhecer a nossa responsabilidade não significa absolver o sistema. Há opressões reais, e elas merecem ser nomeadas, combatidas e, quando possível, transformadas. O ponto aqui é outro. O sistema explica de onde partimos, mas não escolhe sozinho para onde vamos. Entre o estímulo e a resposta existe um intervalo, e o que fazemos com ele é nosso.

Explicação não é desculpa

A distinção mais importante deste tema é também a mais esquecida: explicar não é justificar. Explicar é entender as causas de um comportamento. Justificar é usar essas causas para dispensar a nós mesmos de qualquer mudança. Posso entender perfeitamente por que reajo com raiva quando sou contrariado, porque cresci numa casa onde só quem gritava era ouvido. Isso é explicação, e é valiosa. Mas, se eu disser “sou assim por causa da minha criação” e encerrar o assunto, transformei a explicação em desculpa, e a desculpa em cárcere.

A psicologia e a filosofia chegaram a conclusões parecidas por caminhos diferentes. Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração, escreveu que lhe podiam tirar tudo, menos a última das liberdades humanas: escolher a atitude diante de qualquer circunstância. Não é um elogio ao sofrimento nem uma negação do horror. É a constatação de que há uma instância interna que nenhum sistema consegue ocupar por completo.

O mesmo vale, em escala menos dramática, para o cotidiano. O gestor que reclama da cultura tóxica da empresa, mas valida a toxicidade nas reuniões. O filho adulto que culpa os pais por tudo, mas nunca teve a conversa difícil que poderia mudar a relação. O profissional que se queixa do mercado, mas há anos não se atualiza. Em cada caso, o contexto é real. E em cada caso, existe uma escolha que ficou por fazer.

As escolhas que não parecem escolhas

Grande parte da complexidade que carregamos não vem de decisões dramáticas, e sim de decisões invisíveis. Adiar uma conversa difícil é uma escolha. Ficar num emprego que nos adoece, “só mais um ano”, é uma escolha. Calar diante de uma injustiça para não perder o conforto é uma escolha. Aceitar o papel que a família nos deu aos oito anos de idade, e repeti-lo aos quarenta, também é uma escolha. Como não vêm acompanhadas de um momento solene, tendemos a esquecer que as fizemos.

A omissão é uma das formas mais sofisticadas de decidir. Quem não escolhe deixa que o acaso, o hábito ou a vontade alheia escolham em seu lugar, e depois se queixa do resultado como se ele tivesse caído do céu. É assim que problemas pequenos, negligenciados por meses, viram crises. É assim que relacionamentos esfriam sem que ninguém tenha tomado a decisão de esfriá-los. É assim que carreiras estagnam sem um único ato de sabotagem, apenas pela soma de pequenas renúncias.

Há ainda a complexidade que fabricamos por dentro: as narrativas que contamos sobre nós mesmos, as expectativas que ninguém nos impôs explicitamente, mas que assumimos como lei. Muitas vezes o sistema que nos oprime já foi internalizado, e passamos a nos policiar sozinhos, sem que ninguém precise vigiar. Nesse ponto, a pergunta “quem está me impedindo?” merece ser trocada por outra, mais honesta: “o que eu estou permitindo?”

O preço de terceirizar a própria vida

A vitimização cobra juros altos. O primeiro é a perda de poder: quem acredita que tudo depende dos outros passa a esperar. Espera que o chefe mude, que o governo resolva, que a família peça desculpas, que o momento certo apareça. A espera, por sua vez, consome anos. O segundo juro é o ressentimento, que corrói a energia e contamina as relações, porque quem vive em dívida com o passado cobra o presente de pessoas que nada têm a ver com a conta.

O terceiro é mais sutil: a vitimização cria uma identidade. Depois de um tempo, a pessoa já não sofre de uma situação, ela é a sua queixa. E identidades são difíceis de abandonar, mesmo quando machucam, porque nos dão previsibilidade e o consolo de pertencer a um grupo de insatisfeitos. Abrir mão da queixa exige coragem, pois obriga a perguntar quem somos sem ela.

A responsabilidade, ao contrário, devolve o volante. Quando digo “isso depende de mim, ao menos em parte”, deixo de ser espectador e volto a ser protagonista. A margem de ação pode ser pequena, mas é minha, e margens pequenas, exercidas com consistência, mudam trajetórias inteiras. Atletas de resistência sabem disso: ninguém controla o clima, o percurso ou a dor da prova, mas cada passo, individualmente, é uma decisão. A linha de chegada é apenas a soma delas.

Da culpa à autoria

Assumir responsabilidade não é uma epifania, é uma prática. Ela começa quando trocamos o “por que isso acontece comigo?” pelo “o que eu posso fazer com isso?”. Em seguida, vem a coragem de separar o que não controlamos do que controlamos, e de gastar energia apenas no segundo grupo. Depois, a disciplina de nomear a própria parte: onde eu contribuí para este problema, mesmo que minimamente? Onde eu me omiti, evitei, adiei ou aceitei o que não devia?

Essa pergunta, feita com honestidade e sem autoflagelo, é libertadora. Ela não exige perfeição nem punição. Exige apenas que olhemos para a nossa participação com a mesma firmeza com que olhamos para a dos outros. E, quando a encontramos, abrem-se caminhos concretos: a conversa que precisa acontecer, o limite que precisa ser colocado, a competência que precisa ser desenvolvida, a saída que precisa ser planejada.

Isso vale também para quem lidera. Famílias, equipes e organizações só amadurecem quando alguém decide parar de procurar culpados e começa a perguntar o que é possível fazer a partir de agora. Líderes que assumem seus erros em público criam ambientes onde os outros também podem assumir os seus, e é aí que a complexidade começa, de fato, a diminuir.

O sistema continuará existindo, imperfeito e muitas vezes injusto. Seremos oprimidos por ele mais vezes do que gostaríamos. Mas há uma diferença decisiva entre ser afetado por um sistema e ser definido por ele. Se tudo parece complexo demais, vale começar pela pergunta mais simples e mais desconfortável: qual é a minha parte nisso? A resposta pode doer, mas é a única que nos devolve algo que nenhum sistema pode tirar: o poder de escolher o próximo passo.

Chegou a sua hora!

Faça por você.
Viva por você.

André Soares 

CEO |Escritor |Mentor |Palestrante |Triatleta |Ultramaratonista |Bacharel Educação Física
andrennf@icloud.com 
Instagram: @andresoares.ultra

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