A trajetória de André Soares, triatleta e ultramaratonista que transformou disciplina em resultado
Por André Soares
Olá leitoras e leitores, comandante na área!
Este artigo é sobre como transformei o desconforto físico em clareza mental, o cansaço em disciplina e a queda em combustível. É sobre como aprendi, entre uma subida e outra, que o medo — de errar, de falhar, de não ser bom o suficiente — não é um inimigo a ser eliminado, mas um companheiro de trilha a ser administrado. E é, acima de tudo, um convite para que você, leitor, olhe para os seus próprios medos diários com a mesma coragem com que eu olho para uma trilha de 80 quilômetros nas montanhas.
Ninguém começa uma ultramaratona sem sentir medo. E ninguém começa uma carreira no mercado de trabalho sem sentir o mesmo. O medo do fracasso, da rejeição, da exaustão, do julgamento alheio — esses fantasmas acompanham qualquer pessoa que decide sair da zona de conforto e perseguir algo grande. A diferença entre quem vence e quem desiste não está na ausência de medo, mas na relação que se estabelece com ele.
Eu conheço essa relação de perto. Antes de conquistar minha posição no mercado, antes de conquistar a confiança de colegas e clientes, eu era apenas mais um jovem cheio de dúvidas, tentando decifrar um mercado complexo, competitivo e implacável. E antes de completar minha primeira prova de montanha, eu era um corredor amador, sem técnica, sem estratégia, movido única e exclusivamente pela vontade de provar a mim mesmo que era capaz.
Essas duas jornadas — a esportiva e a profissional — se cruzam o tempo todo na minha trajetória. E é justamente nesse cruzamento que mora a inspiração deste artigo: mostrar, através da minha própria história, como a resiliência construída nas trilhas pode — e deve — ser aplicada aos desafios do cotidiano, sejam eles profissionais, financeiros ou pessoais.
Escrevi este texto para quem enfrenta, todos os dias, pequenos e grandes medos. Para quem hesita antes de tomar uma decisão importante. Para quem já pensou em desistir de um projeto, de uma meta, de um sonho. Se você se identifica com alguma dessas situações, continue lendo. Minha jornada tem muito a ensinar.
Eu não nasci corredor, nem nasci profissional e mercado. Como a maioria das pessoas que hoje conquistam espaço em suas áreas, construí minha trajetória passo a passo, superando obstáculos que, à primeira vista, pareciam intransponíveis.
Ingressei no mercado de trabalho, devido a necessidade de ajudar em casa, pela dinâmica da vida e, principalmente, pelo desafio de contribuir com decisões que impactam de verdade a vida das pessoas. Mas o caminho não foi fácil. Logo nos primeiros anos de carreira, enfrentei aquilo que muitos profissionais conhecem bem: a reprovação em certificações essenciais para atuar no mercado.
Lembro exatamente da sensação de sair da sala de prova sabendo que não tinha ido bem. Foi um misto de frustração e vergonha. Eu tinha estudado, tinha me dedicado, e ainda assim não foi suficiente.
A reprovação em uma certificação pode parecer, para quem está de fora, um obstáculo pequeno. Mas para quem está construindo uma carreira, é um golpe duro. É o medo do fracasso se materializando diante dos olhos. É a voz interna que sussurra “talvez você não sirva para isso” ganhando força. É exatamente nesse momento que a maioria das pessoas desiste — e é exatamente nesse momento que eu decidi não desistir.
Aquilo que o sistema organizacional faz, mede você pelo papel de formação e não pela sua capacidade de realizar.
Essa capacidade de transformar fracasso em aprendizado seria, anos mais tarde, a mesma que me levaria a completar provas de ultramaratona em condições extremas de montanha. Mas isso ainda estava por vir.
Foi em um momento de transformação da minha vida. Num momento em que estava pesando 98kg e não tinha mais vontade de viver. A corrida vem como uma válvula de escape. O que começou como uma forma de aliviar a pressão do dia a dia rapidamente se transformou em paixão — e, mais tarde, em estilo de vida.
No início, eu corria simplesmente para desligar a cabeça. Não tinha nenhuma pretensão esportiva. Mas fui percebendo que, depois de cada corrida, eu voltava para casa com mais clareza, mais foco e menos ansiedade.
Aos poucos, os treinos foram ficando mais longos, as distâncias mais desafiadoras, e o asfalto das ruas da cidade passou a não ser mais suficiente. Comecei a me interessar por trilhas, por montanhas, por terrenos irregulares que exigiam mais do que resistência física — exigiam estratégia, paciência e, sobretudo, controle emocional.
Esse foi o início de uma jornada que me levaria, a completar provas de ultramaratona em algumas das trilhas mais desafiadoras do país, muitas delas com desníveis acumulados de milhares de metros e distâncias que ultrapassam os 70, 80, até 100 quilômetros.
Se existe um lugar onde o ser humano se depara com sua própria fragilidade — e também com sua própria força — esse lugar é a montanha. Correr em trilha não é como correr na rua. Não há ritmo constante possível, não há previsibilidade total. O terreno muda a cada passo, o clima pode virar em minutos, e o corpo é obrigado a se adaptar constantemente.
Para mim, essa imprevisibilidade se tornou uma metáfora poderosa para a vida profissional. O mercado de trabalho é exatamente assim: instável, imprevisível, cheio de variáveis que fogem do nosso controle. Assim como na montanha, você não controla o clima, não controla o terreno. Você só controla a sua reação a essas variáveis.
Essa filosofia, construída ao longo de centenas de quilômetros percorridos em trilhas, tornou-se um dos pilares da minha atuação profissional. Em vez de tentar prever com exatidão os movimentos do mercado — algo impossível mesmo para os analistas mais experientes —, passei a focar naquilo que realmente está sob meu controle: a preparação, a estratégia, a disciplina e a capacidade de me adaptar rapidamente às mudanças de cenário.
Uma das características mais marcantes da corrida de montanha, especialmente em provas de ultramaratona, é a solidão. Diferente de esportes coletivos, ou mesmo de corridas de rua mais movimentadas, as ultramaratonas de montanha muitas vezes me colocam sozinho, por horas, em meio à natureza, sem contato com outras pessoas, sem estímulos externos, apenas com os próprios pensamentos.
Existem trechos de prova em que passo horas sem ver ninguém. É só eu, a trilha e a minha mente. E é aí que a prova de verdade acontece — não é física, é mental.
Essa solidão, que para muitos seria assustadora, tornou-se para mim uma ferramenta de autoconhecimento. Foi nas horas de silêncio, durante os treinos e as provas, que desenvolvi a capacidade de observar meus próprios pensamentos sem ser dominado por eles — uma habilidade que se mostraria fundamental também na gestão de crises no ambiente corporativo, quando decisões precisam ser tomadas sob pressão extrema, muitas vezes sozinho, diante de um cenário de incerteza.
Quando o mercado passa por turbulência, ou quando um problema urgente aparece no trabalho, eu recorro exatamente ao que aprendi nas trilhas: respirar, manter a calma, avaliar o cenário com clareza e agir com estratégia, não com impulso.
Tomar decisões importantes no mercado de trabalho não é tarefa para quem se deixa levar pelo pânico. Exige frieza, estratégia e, principalmente, controle emocional — justamente as qualidades que afirmo ter desenvolvido e aperfeiçoado nas trilhas de montanha.
O mercado de trabalho, o famoso mundo corporativo ou dos grandes negócios, são por natureza, um ambiente de alta volatilidade emocional. Notícias, crises, oscilações — tudo isso impacta diretamente o humor de quem trabalha nesses setores, que frequentemente precisam reagir de forma racional, e não emocional, diante das oscilações. É meu papel, portanto, ser um ponto de equilíbrio nessa equação: a voz calma em meio à tempestade.
Um dos maiores desafios da minha profissão não é entender de economia ou de produtos financeiros — isso se aprende com estudo e experiência. O maior desafio é gerenciar as emoções, tanto as minhas quanto as das pessoas ao meu redor, especialmente nos momentos de crise.
E é exatamente nesse ponto que a experiência da corrida de montanha se mostra mais valiosa. Completar uma prova de ultramaratona ensina, na prática, uma lição que nenhum curso de finanças, ou qualquer faculdade ou uma pós graduação consegue transmitir: a capacidade de continuar avançando mesmo quando tudo dentro de você está pedindo para parar.
No quilômetro 60 de uma prova de 80 km, meu corpo está exausto, minhas pernas doem, minha mente começa a questionar por que estou fazendo aquilo. É nesse momento que aprendi a diferenciar dor de sofrimento, cansaço de incapacidade. E essa mesma lógica se aplica perfeitamente ao trabalho: uma dificuldade passageira não significa que a estratégia de longo prazo esteja errada.
Um dos episódios mais marcantes da minha trajetória profissional aconteceu durante um período de forte turbulência no mercado, quando diversas pessoas ao meu redor, tomadas pelo pânico, buscavam respostas imediatas para decisões que exigiam calma e análise cuidadosa. Era um momento crítico, em que decisões precipitadas poderiam significar consequências irreversíveis.
Lembro de estar literalmente entre uma tarefa e outra, tentando acalmar cada situação, individualmente, explicando o cenário, mostrando os dados, reforçando a estratégia de longo prazo. Foi um dos dias mais desgastantes da minha carreira.
E foi justamente ali, em meio ao caos, que recorri à mesma técnica que utilizo nas trilhas mais difíceis: dividir o desafio em pequenas etapas. Assim como numa prova de montanha eu não penso nos 80 km inteiros, mas sim no próximo quilômetro, no próximo trecho, naquele dia eu não pensei em resolver a crise inteira de uma vez. Fui atendendo situação por situação, com calma e clareza.
O resultado dessa postura foi a manutenção da confiança das pessoas envolvidas, que optaram por seguir a orientação estratégica proposta, evitando decisões precipitadas motivadas apenas pelo pânico momentâneo. Meses depois, o cenário se estabilizou, validando a abordagem de longo prazo que defendi.
A palavra resiliência tem sido amplamente utilizada — e, muitas vezes, banalizada — no ambiente corporativo. Mas, para mim, resiliência não é um conceito abstrato de palestra motivacional. É uma prática diária, construída com esforço, repetição e, principalmente, com a capacidade de encarar o fracasso sem se deixar destruir por ele.
Como mencionei anteriormente, minha trajetória no mercado de trabalho não começou com sucessos. Pelo contrário: começou com reprovações medidas por certificações importantes, um dos primeiros grandes obstáculos enfrentados por qualquer profissional que deseja atuar no setor no Brasil.
Eu poderia ter desistido ali. Muita gente desiste. É mais fácil culpar o sistema, dizendo que é injusto, que aquilo não é para você. Mas escolhi outro caminho: entender onde eu tinha errado e trabalhar exatamente naquilo.
As pessoas costumam ver o tempo dedicado ao esporte como um luxo, algo que se sacrifica quando a rotina fica mais pesada. Eu enxergo exatamente o oposto: quanto mais pesada a rotina, mais eu preciso desse tempo na trilha, porque é ali que recarrego a energia mental necessária para tomar boas decisões.
Disciplina não é motivação. Motivação é passageira, vem e vai. Disciplina é fazer o que precisa ser feito independentemente de como você está se sentindo naquele dia. É isso que sustenta tanto um atleta de ultramaratona quanto um profissional de sucesso.
Minha rotina costuma começar muito antes do amanhecer, com treinos de corrida, natação, ciclismo ou fortalecimento muscular, seguidos de um período dedicado ao estudo de mercado e acompanhamento de notícias econômicas, antes mesmo do início de qualquer expediente. Durante o dia, o foco se volta inteiramente para as responsabilidades profissionais como análises, reuniões estratégicas, mentorias e acompanhamento de resultados de clientes. Nos finais de semana, os treinos se tornam mais longos, muitas vezes simulando as condições reais das provas de ultramaratona.
Não existe fórmula mágica. Existe rotina, existe planejamento e existe a disposição de abrir mão de coisas menos importantes para dar espaço àquilo que realmente importa.
A seguir, reuni os principais aprendizados extraídos da minha trajetória, transformados em lições práticas e aplicáveis à vida de qualquer pessoa que deseja vencer seus próprios medos.
1. O medo não desaparece — você aprende a correr com ele
Um dos maiores equívocos sobre coragem é pensar que ela significa ausência de medo. Na verdade, coragem é a capacidade de agir apesar do medo. Eu nunca deixei de sentir medo antes de uma prova difícil, nem deixei de sentir insegurança diante de decisões profissionais importantes. A diferença é que aprendi a não deixar o medo determinar minhas ações.
Eu ainda sinto medo antes de cada prova grande. E ainda sinto uma pontada de ansiedade quando preciso tomar uma decisão importante. A diferença é que, hoje, eu sei que esse medo é normal, faz parte do processo, e não precisa me paralisar.
2. Divida o desafio em etapas menores
Assim como eu não penso nos 80 quilômetros inteiros de uma prova, mas sim no próximo trecho, no próximo quilômetro, é possível — e recomendável — aplicar essa mesma lógica aos desafios do cotidiano. Um projeto grande, uma mudança de carreira, uma meta ambiciosa: tudo se torna mais leve quando dividido em pequenas etapas alcançáveis.
3. Trate o erro como informação, não como sentença
A reprovação poderia ter sido o fim da minha vida antes mesmo de começar. Em vez disso, tornou-se o ponto de partida para uma reformulação de estratégia que me levou ao sucesso. Da mesma forma, qualquer fracasso na sua vida pode ser interpretado de duas formas: como prova de incapacidade ou como informação valiosa sobre o que precisa ser ajustado. A escolha da interpretação está inteiramente em suas mãos.
4. Reserve tempo para o silêncio
Em meio à rotina acelerada da vida moderna, reservar momentos de silêncio e desconexão — seja através do esporte, da meditação ou de qualquer outra prática — é essencial para recuperar clareza mental e tomar decisões melhores. Não é luxo, é necessidade.
5. Disciplina supera motivação
A motivação é passageira. A disciplina, não. Construir hábitos consistentes, mesmo nos dias em que a vontade não colabora, é o que sustenta qualquer conquista de longo prazo, seja ela esportiva, profissional ou pessoal.
6. A solidão pode ser produtiva
Nem todo momento de solidão precisa ser evitado ou temido. Muitas vezes, é justamente na solidão — sem as distrações e opiniões externas — que encontramos clareza sobre nós mesmos e sobre os caminhos que devemos seguir.
7. Persistência é mais importante que talento
Eu não era, inicialmente, o mais talentoso dos corredores, nem o mais brilhante dos profissionais em início de carreira. O que me diferenciou foi a persistência: a capacidade de continuar tentando, ajustando e evoluindo, mesmo diante das dificuldades.
A minha trilha é feita de pedras, subidas íngremes, quedas de temperatura e longas horas de solidão. A sua trilha pode ser outra: uma mudança de carreira, uma conversa difícil que você vem adiando, um projeto pessoal engavetado por medo do julgamento alheio, uma certificação que você ainda não teve coragem de tentar novamente depois de uma primeira reprovação. Seja qual for o seu desafio, a lógica é a mesma: você não precisa ver o caminho inteiro. Precisa apenas dar o próximo passo.
E se, no meio do caminho, vier o cansaço, a dúvida ou o medo — lembre-se de que isso não é sinal de que você está no lugar errado. É sinal de que você está exatamente onde o crescimento acontece.
Que este artigo sirva, então, não apenas como uma história inspiradora sobre um triatleta e ultramaratonista que também construiu uma trajetória sólida no mercado de trabalho, mas como um convite prático e direto: escolha, hoje, uma trilha para começar a percorrer. E dê o primeiro passo.
*Este artigo é dedicado a todos que, como eu, escolhem encarar seus medos diários com coragem, disciplina e resiliência — seja nas montanhas, no mercado de trabalho ou em qualquer trilha que a vida apresente.*
Chegou a sua hora!
Faça por você.
Viva por você.
André Soares
Escritor |Mentor |Palestrante |Triatleta | Maratonista/ Ultramaratonista
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Instagram: @andresoares.ultra
