Por André Soares
Olá leitoras e leitores, comandante na área!
Faz alguns anos, antes de qualquer largada de triatlo ou de qualquer ultramaratona, eu sentia o mesmo aperto no peito que você provavelmente sente antes de uma reunião decisiva, de uma apresentação para a diretoria ou de uma conversa difícil com sua equipe. O coração acelera, a mente projeta cenários de fracasso, o corpo pede para fugir. Demorei anos para entender uma coisa simples: a ansiedade não é o inimigo. Ela é um sinal. E sinais existem para serem interpretados, não silenciados.
Sou triatleta, maratonista, ultramaratonista, escritor e palestrante. Treino todos os dias, por cerca de três horas, não porque busco apenas performance física, mas porque descobri que o corpo é a porta de entrada mais confiável para a estabilidade mental. E é sobre essa descoberta — construída na estrada, nos treinos de madrugada, nos quilômetros finais de uma prova de 100km quando tudo dentro de mim gritava para parar — que quero falar com você, que lidera ou que sonha em liderar.
A pressão de liderar é uma prova de ultrarresistência
Ninguém avisa isso quando você assume um cargo de liderança: a pressão não vem em picos isolados, ela vem em fluxo contínuo. Prazos, pessoas, resultados, expectativas — tudo ao mesmo tempo, todos os dias. É exatamente como correr uma ultramaratona. Não existe um único obstáculo decisivo; existe uma sequência interminável de decisões que você precisa tomar mesmo exausto, mesmo com dúvida, mesmo com medo de errar.
A diferença entre o líder que se esgota e o líder que se fortalece não está na ausência de ansiedade. Está na relação que essa pessoa constrói com ela. Eu não corro porque não sinto medo antes de uma prova. Corro porque aprendi a transformar esse medo em preparação, em disciplina, em presença. E essa transformação não acontece por acaso — ela é treinada, como qualquer músculo.
O que aprendi correndo que se aplica direto à liderança nos dias atuais.
Quando comecei no esporte, minha ansiedade tomava conta de tudo: eu me preocupava com o resultado antes mesmo de treinar direito. Foi correndo distâncias cada vez mais longas que aprendi a diferença entre ansiedade que paralisa e ansiedade que impulsiona. A primeira vive no futuro, num resultado que ainda não existe. A segunda vive no presente, no próximo passo, na próxima respiração, na próxima decisão.
Um líder ansioso que vive no futuro — no relatório que ainda não entregou, na reunião que ainda vai acontecer, na crise que talvez nem aconteça — gasta energia duas vezes: uma vez imaginando o problema, outra vez, de verdade, resolvendo-o. Um líder que aprende a trazer a mente para o presente resolve o problema uma única vez, com mais clareza e menos desgaste.
Isso não é teoria. É prática diária. E é sobre essa prática que quero deixar cinco aprendizados concretos, que uso todos os dias e que podem te ajudar a viver esse processo de evolução.
Cinco dicas para transformar ansiedade em força de liderança
1. Trate o corpo como parte da estratégia, não como detalhe
Muitos líderes tratam saúde física como algo secundário, algo que “quando sobrar tempo” será resolvido. Eu inverto essa lógica: o treino é a primeira reunião do meu dia, não a última prioridade. Movimento físico regular reduz os níveis de cortisol, melhora a qualidade do sono e devolve clareza mental. Você não precisa treinar três horas por dia — precisa de constância. Vinte minutos de caminhada, uma corrida leve, um treino de força três vezes por semana já mudam a forma como sua mente responde à pressão. Corpo regulado, mente mais estável.
2. Construa hábitos, não motivação
Motivação é instável — vai e vem com o humor, com o clima, com a última notícia ruim. Hábitos não. Antes de uma prova longa, eu sigo sempre a mesma sequência: alongamento, respiração, revisão mental do percurso. Isso não é superstição, é regulação do sistema nervoso. Como líder, você pode criar seus próprios rituais: os primeiros dez minutos do dia sem celular, uma respiração consciente antes de entrar numa reunião tensa, uma pausa de cinco minutos entre uma call e outra. O ritual avisa ao corpo: “estamos no controle”, mesmo quando a mente ainda duvida.
3. Divida a distância em pedaços possíveis
Ninguém corre 100km pensando nos 100km. Se eu fizesse isso, pararia no quilômetro dois. Eu penso no próximo posto de hidratação, no próximo quilômetro, no próximo passo. A ansiedade cresce quando olhamos para o tamanho total do desafio. Ela diminui quando quebramos esse desafio em etapas administráveis. Diante de um projeto grande, de uma crise na equipe ou de uma meta que parece impossível, pergunte-se apenas: qual é o próximo passo possível, hoje, agora? Resolva esse. Depois o próximo.
4. Aceite o desconforto como parte do processo, não como sinal de erro
Durante uma ultramaratona, o desconforto físico é constante — e isso é esperado, não é sinal de que algo está errado. Muitos líderes interpretam a ansiedade como prova de que estão falhando, quando na verdade ela é apenas prova de que estão diante de algo que importa. Aceitar o desconforto sem lutar contra ele economiza uma energia enorme, a mesma energia que você usaria brigando com o próprio corpo, e que pode ser direcionada para agir.
5. Cerque-se de gente que também está treinando a mente
Ninguém corre uma ultramaratona sozinho de verdade — existe uma equipe de apoio, parceiros de treino, pessoas que entendem a jornada. Liderança também não deveria ser solitária. Busque mentores, grupos de líderes, terapia, mentorias, conversas honestas com pares que enfrentam desafios parecidos. Compartilhar a ansiedade com quem entende o caminho tira dela o peso do segredo — e o segredo é sempre mais pesado do que a própria dificuldade.
O ponto de chegada não é a ausência de medo
Depois de tantos quilômetros percorridos, tantas provas concluídas e tantas madrugadas de treino, aprendi que a meta nunca foi eliminar a ansiedade. Isso seria como tentar eliminar o vento durante uma corrida — impossível e, sinceramente, desnecessário. A meta é aprender a correr com o vento, usá-lo a favor quando possível, e seguir em frente quando ele sopra contra.
Se você lidera pessoas, ou sonha em liderar, saiba disto: a ansiedade que você sente não é fraqueza. É o sinal de que você se importa com o resultado, com as pessoas, com o impacto do seu trabalho. O que separa quem se esgota de quem evolui não é a ausência dessa sensação — é a disciplina diária de cuidar do corpo, criar rituais, hábitos, dividir o caminho, aceitar o desconforto e não caminhar sozinho.
Assim como cada corrida me ensina algo novo sobre resistência, cada dia de liderança pode te ensinar algo novo sobre você mesmo. O desafio não é chegar sem ansiedade. É chegar mais forte por causa dela.
Chegou a sua hora!
Faça por você.
Viva por você.
André Soares
Escritor |Mentor |Palestrante |Triatleta | Maratonista/ Ultramaratonista
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Instagram: @andresoares.ultra
